Lucas 4.1-13
Comentário Barclay
Lucas 4:1-13
Vimos como na vida de Jesus existiram certos grandes marcos, e este é um deles. No templo, quando tinha doze anos tomou consciência de que Deus era seu pai em uma maneira única. Sua hora tinha chegado com o surgimento de João e a aprovação de Deus tinha chegado durante seu batismo. De modo que neste momento Jesus estava para começar sua campanha. Antes de fazer tal coisa, qualquer pessoa deve escolher os métodos que vai usar. O relato da tentação mostra a Jesus escolhendo uma vez por todas os métodos que se propunha utilizar para ganhar homens para Deus. Mostra a Jesus rechaçando o caminho do poder e a glória e aceitando o do sofrimento na cruz.
Antes de considerar a história em detalhe devemos ter em conta dois pontos gerais.
(1) É a mais sagrada de todas as histórias, porque não pode proceder de outra fonte senão dos próprios lábios de Jesus. Em algum
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momento deve ter relatado a seus discípulos a experiência mais íntima de sua alma.
(2) Já nesse então Jesus deve ter tido consciência de que era dono de poderes excepcionais. A base das tentações é que só poderiam ter sido apresentadas a um homem que pudesse fazer coisas maravilhosas. Para nós não seria uma tentação converter as pedras em pão ou saltar do pináculo do templo, já que se trata de impossíveis. São tentações que só podem apresentar-se a um homem dotado de poderes únicos e que tinha que decidir o que fazer com eles.
Em primeiro lugar pensemos na cena. Ocorreu no deserto. A zona desabitada da Judéia ocupava a meseta central que era o espinho dorsal da parte sul da Palestina. Entre esta zona e o Mar Morto havia um deserto terrível, de cinqüenta quilômetros por vinte e cinco. Era chamado "Jeshimmon", que significa "A devastação". As colinas eram como acumulações de pó; a pedra calcária parecia amolada e descascada; as rochas nuas e trincadas; o solo parecia oco sob os cascos dos cavalos; brilhava com o calor como uma grande fornalha e terminava em precipícios de quatrocentos metros de altura, que se precipitavam ao redor do Mar Morto. Nesta aterradora desolação Jesus foi tentado.
Não devemos pensar que as três tentações apareceram como as cenas de um drama. Devemos pensar que Jesus se retirou deliberadamente a este lugar solitário e lutou por quarenta dias com o problema de como ganhar os homens. Fui uma longa batalha que só finalizou na cruz, já que a história termina dizendo que o diabo o deixou por algum tempo.
(1) A primeira tentação consistiu em converter as pedras em pão. Este deserto não era arenoso. Estava coberto de pequenas partes de pedra calcária exatamente como pães. O diabo disse ao Jesus: "Se quiseres que o povo te siga, utiliza teus poderes maravilhosos para dar-lhes bens materiais". Estava-lhe sugerindo que devia subornar as pessoas com presentes materiais para que o seguissem. A resposta de Jesus é uma citação de Deuteronômio 8:3. "Não só de pão viverá o homem." A tarefa
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do cristianismo não é a de produzir novas condições, apesar de que o peso e a voz da igreja devem estar apoiando todos os esforços para melhorar a vida dos homens. A tarefa real é a de produzir novas criaturas; feitas as novas criaturas, se seguirão as novas condições.
(2) Na segunda tentação Jesus imaginou estar de pé em uma montanha da qual se via todo mundo civilizado. O diabo lhe disse: "Adora-me, e o mundo será teu." Esta é uma tentação à contemporização. "Tenho as pessoas ‘com o rabo preso’, não ponha seus princípios tão alto. Façamos um acordo. Contemporiza um pouco com o mal e os homens te seguirão". Uma vez mais Jesus cita as escrituras (Deuteronômio 6:13; 10:20). É uma tentação constante querer ganhar os homens, contemporizando com os princípios mundanos.
G. K. Chesterton disse que a tendência do mundo é ver as coisas em um tom cinza indeterminável; mas a obrigação de um cristão é ver as coisas em preto e branco. Como disse Carlyle: "Um cristão deve ser consumido pela convicção da beleza infinita da santidade e a maldição infinita do pecado."
(3) Na terceira tentação Jesus se imaginou no pináculo do templo, no encontro do Pórtico de Salomão e o Real. Havia uma queda de cento e cinqüenta metros para o vale do Cedrom. Esta tentação era a de dar sensações às pessoas. "Não tentarás ao Senhor teu Deus", disse Jesus (Deuteronômio 6:16). Ele viu claramente que se produzia ações espetaculares seria notícia por uns poucos dias. Mas o sensacionalismo nunca perdura. O duro caminho do serviço e do sofrimento leva à cruz, mas depois da cruz à coroa.
Comentário Moody
D. A Tentação. 4:1-13
A narrativa da tentação de nosso Senhor foi apresentada por Lucas e Mateus. Jesus, assim como Adão (Gn. 3:6), foi experimentado nas três áreas do apetite físico, da ambição temporal e do alcance espiritual, para que fosse provado competente em sua missão. Onde o primeiro homem falhou, ele triunfou.
1. Guiado pelo Espírito. A primeira diretiva do Espírito Santo que foi registrada conduzia à prova. Deserto. O cenário tradicional para a Tentação é um território estéril a noroeste do Mar Morto, completamente despido de vegetação ou qualquer espécie de abrigo.
2. Quarenta dias. Um período comum para provação (Gn. 7:4; Êx. 24:18; I Reis 19:8; Jo. 8:4).
3. Se és o Filho de Deus. A condicional grega usada dá a entender que o diabo não duvidava de que Jesus fosse o Filho de Deus, mas em vez disso presumia que Jesus não tinha o direito de criar. Pão. O pão na Palestina não tinha o formato comprido dos nossos filões, mas era um bolo redondo e chato. As pedras do chão tinham o aspecto de pães.
4. Está escrito. Jesus não compôs a sua própria resposta para o tentador, mas extraiu a sua réplica da revelação das Escrituras. Não só de pão viverá o homem. (Dt. 8:3). O homem precisa de pão, mas o pão não serve para todas as necessidades. A gratificação material dos apetites não pode nunca satisfazer os mais profundos anseios do espírito humano.
5. Todos os reinos do mundo. Das alturas da cadeia de montanhas podia-se ver os territórios antigamente ocupados pelos impérios do Egito, Assíria, Babilônia, Pérsia, Grécia e Roma.
6. Dar-te-ei a ti toda esta autoridade. Cristo veio para reclamar o mundo como seu reino, e o diabo estava oferecendo-lhe em termos "fáceis".
7. Portanto, se prostrado me adorares. Pela adoração, Jesus permutaria a sua independência com os reinos do mundo. Se ele
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aceitasse esses termos, não seria realmente o soberano, porque se veria obrigado a reconhecer o poderio de Satanás.
8. Ao Senhor teu Deus adorarás. (Dt. 6:13). Ele só admitia a autoridade suprema de Deus. Ele não se comprometia.
9. O pináculo do templo. Uma das ameias ou torres (gr. pterygion, "pequena asa"), de onde se descortinava o átrio ou talvez o Vale de Cedrom. Se Jesus pulasse do alto da ameia para o meio do povo e chegasse ao chão incólume, seria aclamado como o Messias do céu, e sua reputação seria imediatamente formada.
10. Está escrito. Na terceira tentação o diabo omitiu parte do versículo, que diz, "para que te guardem em todos os teus caminhos". Deus não prometeu guardar o seu servo num ato de tola presunção, mas somente quando estivesse andando pelos caminhos de Deus (veja Sl. 91:11, 12).
13. Até o momento oportuno. As palavras dão a entender que a tentação ou o ataque foi renovado mais tarde. O Salvador viveu constantemente sob a pressão do diabo. O diabo é uma personalidade real, embora não seja necessariamente visível.
Comentário BEP
4.1 JESUS, CHEIO DO ESPÍRITO SANTO. O Espírito Santo conferiu poder a Jesus e o guiou, ao enfrentar a tentação de Satanás (vv. 1,2). Para comentários sobre a importância do Espírito na vida de Jesus, ver o estudo JESUS E O ESPÍRITO SANTO
4.2 TENTADO PELO DIABO. Um dos aspectos principais da tentação de Jesus girou em torno do tipo de Messias que Ele seria e como empregaria a sua unção da parte de Deus. (1) Jesus foi tentado a utilizar sua unção e posição para servir a seus próprios interesses (vv. 3,4), obter glória
e poder sobre as nações, ao invés de aceitar a cruz e o caminho do sofrimento (vv. 5-8), e ajustar-se à expectativa popular de um Messias sensacional (vv. 9-11). (2) Satanás ainda tenta os líderes cristãos a usarem sua unção, posição e capacidade em seu próprio benefício, para estabelecer
sua própria glória e reino, e para agradar o povo mais do que a Deus. Quem se entrega ao egoismo, na realidade já se rendeu a Satanás.
4.2 NÃO COMEU COISA ALGUMA. Ver Mt 4.2, nota sobre o jejum.
4.4 NEM SÓ DE PÃO VIVERÁ. Jesus cita o AT (Dt 8.3), ao enfrentar a tentação de Satanás. (1) Jesus está dizendo que tudo o que é importante na vida depende de Deus e da sua vontade (Jo 4.34). Esforçar-se por sucesso, felicidade ou coisas materiais, à parte do caminho e propósito de
Deus, levará à amarga desilusão e terminará em fracasso. (2) Jesus salienta essa verdade ao ensinar que devemos buscar em primeiro lugar o reino de Deus (i.e., o governo, atividade e poder de Deus em nossa vida); somente então é que outras coisas necessárias serão concedidas, de
acordo com a sua vontade e propósito (ver Mt 5.6 nota; 6.33 nota).
4.5 OS REINOS DO MUNDO. Jesus rejeita a oferta que Satanás lhe fez, do domínio sobre todos os reinos do mundo. (1) O reino de Jesus, na presente era, não é um reino deste mundo (Jo 18.36,37). Ele recusa um reino para si através dos métodos mundanos de transigência, poder terreno,
artifícios políticos, violência, domínio, popularidade, honra e glória humanas. (2) O reino de Jesus é um reino espiritual, no coração dos seus, os quais foram tirados do mundo. Como reino celestial: (a) é alcançado através do sofrimento, da abnegação, da humildade e da mansidão; (b) requer
que dediquemos nosso corpo como sacrifício vivo e santo (Rm 12.1), em completa devoção e obediência a Deus; (c) implica em lutar com armas espirituais contra o pecado, a tentação e Satanás (Ef 6.10-20); e (d) importa em resistirmos à conformação com este mundo (Rm 12.2; ver o
estudo O REINO DE DEUS)
