Hebreus 7.1-28

 
Comentário NVI
 
VI. O SACERDÓCIO DE JESUS CONTINUADO
E CONCLUÍDO (7.1— 10.18)
1) Segundo a ordem do sacerdócio de
Melquisedeque (7.1-28)
O autor de H ebreus já citou M elq u isedeque
diversas vezes (5.6,10; 6.20). Agora
começa uma discussão ampla dele e de sua
relação com Cristo. G ênesis 14.17-20 fornece
o contexto histórico e serve a diversos
propósitos: (a) mostrar o caráter moral de Melquisedeque,
(b) demonstrar sua grandeza e
(c) estabelecer uma outra ordem de sacerdócio
que não a de Arão. Aprendemos sobre o
seu caráter moral com base em um estudo
etimológico do seu nome e do da cidade que
ele governou. M elquisedeque é um nom e
composto de duas palavras que quando traduzidas
significam rei de justiça (v. 2). O nome
da sua cidade, Salém, significava “paz”. Daí
que, para o autor de Hebreus, M elquisedeque
era um rei caracterizado por justiça, e seu governo,
por paz (cf. Is 32.1,17). Sua grandeza
pode ser vista com base no fato de que ele
abençoou Abraão, o patriarca (i.e., o pai de
todos nós), numa época em que Abraão não
era menor do que ninguém em importância
na terra — vitorioso sobre Quedorlaom er e
os reis que estavam com ele — e com base
no fato de que Abraão lhe deu o dízimo de tudo
(v. 2). A prova da existência de outra ordem
além da de Arão e de seus descendentes está
no fato de que M elquisedeque é Sem pai, sem
mãe, sem genealogia, sem princípio de dias nem
fim de vida (v. 3), expressões que em si provavelm
ente não signifiquem nada mais do
que o fato de que não há menção de pai ou
mãe etc. nas Escrituras inspiradas. Mas com
base em um princípio de exegese, segundo
o qual os silêncios das Escrituras são tão significativos
quanto as suas afirmações, o autor
entende de tal omissão que M elquisedeque
era uma figura solitária na história que mantinha
o seu sacerdócio por seus próprios
m éritos, não em virtude de descendência,
“que nunca assumiu e nunca perdeu o seu
ofício”, e, portanto, cujo sacerdócio perm anece
para sempre. E significativo que o autor
de H ebreus não identifica M elquisedeque
com Cristo, mas diz que ele é semelhante ao
Filho de Deus (v. 3). M elquisedeque foi, assim,
o fac-símile do qual Cristo é a realidade.
Cristo, portanto, é rei da justiça e da paz no
mais amplo sentido, e sacerdote “semelhante
a” ou “da ordem de” M elquisedeque (v. 15),
isto é, sacerdote para sempre!
Nos v. 4-10, o autor continua a exaltar o
sacerdócio de M elquisedeque. Ele faz isso
ao repetir o fato de que Abraão lhe deu o dízimo
(a melhor parte) dos despojos (v. 4) e em troca
recebeu sua bênção sacerdotal (v. 6). Ao aceitar
esse papel de “quem dizimou” e “quem
foi abençoado”, Abraão que “tinha as promessas”
reconheceu duplam ente a sua inferioridade
em relação a M elquisedeque (v. 7). O
autor exalta ainda mais aquele m isterioso
sacerdócio ao chamar atenção, primeiramente,
para o fato de que os sacerdotes levíticos
são superiores a todos os outros israelitas no
aspecto de que somente eles têm o mandamento
na lei de receber o dízimo [...] dos seus
irmãos (v. 5), e então ao mostrar que até Levi,
que recebe os dízimos, entregou-os a M elquisedeque
por meio de Abraão (v. 9). Os sacerdotes
levíticos, então, embora superiores à grande
2 110
H ebreus 7.1
m ultidão de Israel, são de fato inferiores a
M elquisedeque, e seu sacerdócio é inferior
ao dele. Assim, o argumento do autor é o seguinte:
Os sacerdotes levíticos são superiores
ao restante dos israelitas, porque, embora
mortais, eles, não obstante, recebem os dízimos
dos seus irmãos; Levi é superior aos
sacerdotes porque é seu progenitor; Abraão
é maior do que Levi porque é pai de todos
eles; M elquisedeque é maior do que Abraão,
se por nenhum a outra razão, pelo fato de que
recebeu o dízimo de Abraão e o abençoou;
portanto, M elq u ised eq u e é m aior do que
Abraão, Levi, os sacerdotes levíticos e todo
o Israel. O sentido de tudo isso é, sem dúvida,
provar a superioridade final do sacerdócio
de Cristo, que a essa altura é fácil de fazer,
pois o autor já sugeriu a superioridade de
Cristo sobre M elquisedeque quando disse
que M elquisedeque era sem elhante ao F ilho
de D eus (v. 3). Cristo é maior do que
M elquisedeque, assim como é maior a realidade
do que o fac-símile. Portanto, Cristo é
maior do que Abraão, Levi e todos os seus
descendentes, e seu sacerdócio, também, é
maior do que o deles.
Os v. 11-28 tratam agora dessa nova ordem
de sacerdócio e da sua necessidade. Em
primeiro lugar, o autor ressalta que a nova
ordem foi predita (ele volta a SI 110.4), e que
ela foi predita porque a perfeição não podia
ser atingida por meio do sacerdócio levítico (v.
11). A perfeição aqui significa a capacidade
de o homem se aproximar de Deus (cf. v. 19;
9.9; 10.22). A ordem do antigo sacerdócio
nunca poderia produzir essa aproximação,
embora esse fosse o objetivo principal do sacerdócio,
simplesmente porque nunca poderia
remover de todo o pecado que barrava o
caminho. Portanto, a nova ordem estava na
m ente e no plano de Deus mesmo enquanto
a antiga ordem ainda estava em pleno andamento.
Isso significa que a antiga lei e a antiga
aliança (8.7ss) também eram temporárias,
e foram destinadas a ser colocadas de lado
junto com o sacerdócio, pois todo o sistema
legal “girava em torno do sacerdócio”, visto
que em sua vigência o povo recebeu a Lei (v. 11).
Assim, quando há mudança de sacerdócio, ê necessário
que haja mudança de lei (v. 12). “O
sumo sacerdócio é como a pedra principal de
toda a estrutura da Lei Mosaica; todas as outras
regulamentações ruíram por si quando o
sacerdócio foi transferido para Cristo” (E. F.
Scott, Comm., ad loc.).
A necessidade de tal mudança radical era
grande. É óbvio que aquele de quem se dizem
estas coisas pertencia a outra tribo (v. 13) à qual
não pertenciam privilégios sacerdotais. O
autor entende que a lei proibia que alguém
de outra tribo que não fosse a de Levi servisse
diante do altar (v. 13). Mas é bem conhecido
que o nosso Senhor descende de Judá (v. 14)
e que ele, mesmo assim, estava destinado a
ser sacerdote, pois era a realidade histórica
da predição de SI 110.4: “sacerdote para sempre•”
(v. 15-17). Assim fica ainda mais claro
que, visto que a lei permitia somente aos filhos
de Levi serem sacerdotes, ela precisava
ser cancelada para abrir caminho para esse
que possuía o sacerdócio não em virtude da
descendência legal, mas segundo o poder de
uma vida indestrutível (v. 16). A ênfase aqui
está nas qualidades eternas do seu sacerdócio
que são demonstradas por meio das citações
das Escrituras nos versículos seguintes
(v. 17). Embora o autor não mencione o fato
de que o Senhor descendeu de Davi, d emonstra,
mesmo assim, que Cristo combina
em si mesmo os ofícios tanto de rei quanto
de sacerdote — “da tribo de Judá” e “segundo
a ordem de M elquisedeque”. [V. o
conceito corrente nos textos de C unrã de
dois Messias, um sacerdotal, que era superior
em posição, e um Messias-rei (cf. M anual da
Disciplina, 9.11, na tradução de A. Dupont-
Sommer, The Essene Writings from Qumran,
1961). E possível que Hebreus combata essa
idéia nessa exegese cuidadosa do significado
de M elquisedeque.]
Os v. 18,19 são um resumo do argumento
do autor concernente à suplantação da lei.
v. 19. a Lei não havia aperfeiçoado coisa alguma\
isto é, não levou ninguém a D eus,
mas a “substituição” por uma esperança superior
(“de perdão e absolvição”) realizou isso
2111
H ebreus 8.1
(v. comentário de Moffatt da expressão sendo
introduzida, Comm., ad loc.). Agora é possível
nos aproximarmos de Deus (v. 19), adorarmos
verdadeiram ente, que para o autor de H ebreus
é o elem ento fundam ental na redenção.
Pois agora o relacionamento do homem
com Deus já não é de ordenanças exteriores
som ente, mas é um relacionam ento espiritual
interior que garante a verdadeira comunhão
com ele.
A superioridade definitiva do sacerdócio
de Cristo fica ainda mais clara nos v. 20-25.
Em primeiro lugar, chama-se atenção para o
fato de que Deus não garantiu o antigo sacerdócio
levítico como ele garantiu o novo. Eles
se tomaram sacerdotes sem qualquer juramento
(v. 20). Isso significa para o autor que o sacerdócio
foi somente temporário — provisório.
O sacerdote “segundo a ordem de M elquisedeque”,
no entanto, foi confirmado no seu
ofício por um juramento de Deus (v. 21), por
isso o seu sacerdócio é eterno. Isso torna Jesus
(não o nome) a garantia de uma aliança
superior (v. 22), pois, visto que o sacerdócio e
a aliança estão inextricavelmente ligados (cf.
comentário de “aliança” no cap. 8), a aliança
só é tão duradoura quanto o sacerdócio. Em
segundo lugar, a multiplicidade dos sacerdotes
anteriores em contraste com o novo sacerdote
tam bém destaca a superioridade do
segundo sacerdócio. Antes, a morte impedia
que o sacerdote continuasse no seu ofício (cf.
v. 16); tornava a sua obra incompleta. Mas
não é assim no caso do novo sacerdote —
pois ele tem um sacerdócio permanente, “como
um que não pode ser transferido a outro” (gr.
aparabatos), visto que vive para sempre (v. 24;
cf. tb. 13.8). Isso leva o autor ao clímax dessa
parte do seu discurso sacerdotal. Visto que o
sacerdócio de Cristo é inviolável e “intransferível”,
ele é capaz de salvar definitivamente
aqueles que, por meio dele, aproximam-se de Deus
(v. 25). [Observação: (a) melhor seria traduzir
o gr. eis to panteles (cf. Lc 13.11) por “comp
letam en te” do que definitivam ente, como
temos aqui. Assim, “ele pode garantir a salvação
total e final deles” (F. F. Bruce, Peake,
ad loc.); (b) o significado e o tempo do verbo
2112
“aproximar-se” indicam que aqueles que se
aproximam constantemente para adorar a Deus
por m eio de Jesus C risto são os que ele
é capaz de salvar.] Além disso, visto que o
sacerdócio de Cristo é inviolável e “intransferível”,
ele é capaz de fazer intercessão contínua
por nós — ele pode defender a nossa
causa diante de Deus ininterruptamente.
São feitos os contrastes finais que mostram
a superioridade do sacerdócio de Cristo
sobre o sacerdócio levítico, prim eiram ente
por meio do caráter pessoal dele como sacerdote
e o dos sacerdotes: Ele foi alguém que
satisfez exatam ente as nossas necessidades,
“completamente puro”; eles eram obrigados
a oferecer sacrifícios dia após dia (v. 27); e, em
segundo lugar, entre a qualidade do sacrifício
dele e a do sacrifício deles: O sacrifício
dele foi de si mesmo, uma vítima consciente
e voluntária, de tal natureza que nunca precisou
ser repetido, daí que ele o fez uma vez por
todas (v. 27); o sacrifício que os sacerdotes
faziam era de animais irracionais, oferta involuntária,
cujo sangue nunca poderia tirar o
pecado (cf. lO.lss), daí que era um procedimento
diário e incessante (v. 27).
 
 
Comentário Esperança
 
A OBRA DE JESUS, SEU SERVIÇO COMO ETERNO SUMO SACERDOTE 7.1–10.18
8. A superioridade do sacerdócio segundo a ordem de Melquisedeque sobre o sacerdócio levítico segundo a ordem de Arão, 7.1-28
a. Melquisedeque e Abraão, 7.1-3
1 Porque este Melquisedeque, rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, que saiu ao encontro de Abraão, quando voltava da matança dos reis, e o abençoou,
2 para o qual também Abraão separou o dízimo de tudo (primeiramente se interpreta rei de justiça, depois também é rei de Salém, ou seja, rei de paz;
3 sem pai, sem mãe, sem genealogia; que não teve princípio de dias, nem fim de existência, entretanto, feito semelhante ao Filho de Deus), permanece sacerdote perpetuamente.
1 Por meio das palavras de Hb 5.6,10; 6.20, ou seja, a citação do Sl 110.4 “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque”, o autor forneceu a palavra-chave que faz a transição para a segunda seção principal da nossa carta. A afirmação determina todas as demais declarações: Jesus Cristo é o Sumo Sacerdote. Seu sacerdócio não está alicerçado sobre a ordem levítica de Arão, mas sobre uma ordem de origem divina, concretizada no rei e sacerdote Melquisedeque.
O Sl 110.4 constitui a única passagem do AT que faz referência ao misterioso relato de Gn 14.17-20. Inicialmente, o apóstolo relata mais uma vez, com breves palavras, o transcurso daquele episódio – tão importante é para ele o evento histórico original. Na sua opinião, o acontecimento é significativo até nos detalhes. Cada palavra do antigo relato torna-se transparente: quando Abraão retornou para casa da “guerra dos reis” – após derrotar quatro reis – vêm ao seu encontro dois reis. São os reis de Sodoma, o príncipe da cidade que no AT perfaz a quinta-essência do pecado e da punição de Deus, e o personagem envolto pelo mistério de Deus, Melquisedeque. Ele é rei de Salém, a “cidade da paz”. “Que encontro misterioso e que gesto do mais profundo significado! Através da névoa da história originária reluzem por um instante as cúpulas douradas da sagrada cidadela de Jerusalém, o polo oposto a Babel! Jerusalém, a cidade do grande rei, o eixo da soberania sacerdotal de Deus sobre todos os reinos deste mundo (Sl 76). Jerusalém, a cidade do Cristo, onde estará estabelecido o trono do Ungido de Deus e de seus lugar-tenentes da casa de Davi”. Melquisedeque entra em cena para abençoar Abraão, para oferecer-lhe um fortalecimento após a batalha. Ele lhe traz dádivas celestiais, pão e vinho, como sinal da comunhão com Deus. “Aquilo que este rei de Salém, um sacerdote de Deus, o Altíssimo, surgido inesperadamente, traz a Abraão, representa um refrigério do mundo superior. Como sacerdote de Deus, o Altíssimo, ele também podia conferir poder divino ao pão e ao vinho, refrigério do mundo superior, comunicação de graça e vida sob a forma de pão e vinho”. Em contraposição, o rei de Sodoma vem ao encontro de Abraão com uma proposta tentadora: “Dá-me as pessoas, e os bens ficarão contigo” (Gn 14.21). Isto é característico do poder do pecado e do tentador de nossa alma, à sombra do qual o rei de Sodoma se encontra: exige algo a que não tem direito, e promete dar o que não lhe pertence. No entanto, através das dádivas de Melquisedeque Abraão foi fortalecido em sua resistência contra a proposta traiçoeira do rei de Sodoma. A vitória exterior é seguida da vitória interior. Ele afasta de si o tentador.
Abraão reconhece a autoridade divina de Melquisedeque. A oferta do dízimo a Melquisedeque constitui expressão de sua dependência e gratidão. O apóstolo desenvolverá este último pensamento somente no trecho seguinte. Seu primeiro interesse é interpretar o acontecimento básico. Ele antepôs a palavra do salmo à recapitulação do episódio. O Sl 110.4 nos fornece o único indício do AT: Melquisedeque representa uma ordem sacerdotal com origem em Deus, válida para a eternidade. Considerando, porém, que o Sl 110 constitui uma profecia messiânica (Mt 22.41-45), “Melquisedeque revela-se como um tipo de Cristo, adquirindo assim seu significado pleno”.
2 O autor de Hb não é o primeiro estudioso da Escritura que se esforça por compreender o misterioso personagem de Melquisedeque. No judaísmo tardio já foram feitas repetidas tentativas de explicação. P. ex., alguns consideravam que Melquisedeque era Sem, filho de Noé, que transmitiu as
determinações sobre os pães da proposição a Abraão através do pão e do vinho. Outros associaram o arcanjo Miguel a Melquisedeque. O filósofo judaico Filo, que viveu no tempo de Jesus, identificou-o com uma manifestação do “logos”, Espírito e palavra divina. Estas idéias foram retomadas em séculos posteriores por intérpretes cristãos da Escritura, que interpretaram Melquisedeque como um ente angélico ou uma encarnação do Espírito Santo.
O apóstolo, por sua vez, persegue um caminho diferente para explicar a palavra do AT à comunidade. Por considerar que Gn 14.17-20 e o Sl 110.4 são indicações inequívocas para Cristo, ele interpreta os nomes de Melquisedeque a partir do entendimento comunicado no v. 3. Para sermos mais exatos, ele introduz no AT a sua compreensão pessoal, que lhe foi proporcionada pelo Espírito Santo.
Nessa constatação deparamo-nos, nas palavras apostólicas, novamente com o fato de que os nomes da Bíblia não foram escolhidos por acaso, mas possuem um significado espiritual. Melquisedeque era o rei de Salém. Na tradução e explicação dos termos evidencia-se o significado salutar dos nomes: rei da justiça e rei da paz. Desde o AT a justiça e a paz já nos são conhecidas como sinais da soberania messiânica. Isaías, por isto, anuncia: “seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz; para que se aumente o seu governo, e venha paz sem fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, para o estabelecer e o firmar mediante o juízo e a justiça, desde agora e para sempre” (Is 9.6,7; cf. Mq 5.3,4; Ml 4.2). Justiça e paz, unificadas na pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo, são presenteadas por Cristo às pessoas que se tornam seus seguidores pela fé. Simultaneamente, elas são também as características do reino de Deus, que hoje ainda está oculto, mas que um dia irromperá visivelmente. Aquilo a que os nomes de Melquisedeque aludem alcançou consumação plena na pessoa de Jesus.
3 O apóstolo, porém, não pára na explicação dos nomes. Ele ultrapassa em muito aquilo que o relato de Melquisedeque no AT expressa. De certo modo ele confere à imagem do rei e sacerdote do AT traços fáceis de gravar. Sobre isto escreve O. Michel: “Nosso autor não tem a percepção de que ressaltando Melquisedeque estaria prejudicando a figura de Jesus. Pelo contrário: quanto mais se puder afirmar sobre Melquisedeque, tanto mais fortemente brilha a glória do Filho de Deus”. Gn 14.17-20 informa tão-somente o transcurso histórico do episódio. O apóstolo, porém, caracteriza a pessoa de Melquisedeque com mais detalhes: ([…] sem pai, sem mãe, sem genealogia; que não teve princípio de dias, nem fim de existência, entretanto, feito semelhante ao Filho de Deus), permanece sacerdote perpetuamente. O que primeiramente salta à vista na presente sentença é o fato de que o apóstolo está afirmando mais do que consta no AT. O apóstolo retira uma importante conclusão para a sua explicação da circunstância da inexistência de dados, ou seja, que determinados detalhes não se encontram na Bíblia. Com este método ele acompanha o pensamento rabínico do judaísmo tardio, que defendia a tese de que: “O que não consta na Torá (lei, Escritura), não existe no mundo!”. Resta uma pergunta que não pode ser respondida cientificamente, mas apenas espiritualmente: a base do NT nos dá a liberdade interior e o direito de aplicar este método exegético do judaísmo tardio também na instrução da igreja cristã? Seja como for, o apóstolo procedeu assim. E reclama o direito de estar emitindo uma explicação do AT compromissiva para toda a igreja. É justamente desse modo que ele quer ressaltar que o AT e o NT formam uma unidade, que Jesus Cristo somente pode ser compreendido a partir do AT, mas que também inversamente o AT adquire sentido através de Jesus Cristo.
O apóstolo alinha sete afirmações sobre a pessoa de Melquisedeque. “Sem pai”, em grego apátor, era originalmente uma designação de crianças órfãs, rejeitadas ou ilegítimas, possivelmente para crianças abandonadas, cuja ascendência era ignorada. A palavra “sem mãe”, em grego amétor, indica para a origem sem mãe. Ambos os termos ocorrem no NT somente no presente texto e servem para designar a origem celestial de Melquisedeque. O terceiro dado sobre a pessoa de Melquisedeque, “sem genealogia”, em grego agenealógetos, é um conceito totalmente incomum, que no mais é desconhecido na língua grega e que igualmente ocorre no NT apenas no presente versículo.
Quando em Israel um sacerdote pretendia prestar serviço no santuário, tinha de ser descendente de Arão (Êx 28.1; Nm 3.10; 18.1-7). Seu direito sacerdotal residia exclusivamente sobre a sua ascendência. Além disto, sua mãe tinha de ser uma israelita de boa fama (Lv 21.7; Ez 44.22). Ademais, um sacerdote tinha de ser capaz de comprovar a qualquer instância que descendia de uma geração de sacerdotes (cf. Ed 2.61-63; Ne 7.63-65). Todas as premissas inevitáveis para o sacerdócio
israelita faltam em Melquisedeque. Nessas alusões já podemos registrar indicações ocultas de Cristo. Sua descendência terrena não tinha pai, sua origem celestial não tinha mãe, ele provinha de uma tribo, de Judá, que não tinha direitos para exercer o sacerdócio (Hb 7.14).
Contudo, o apóstolo sequer visa ressaltar o que é escândalo e irritação para um judeu, ou seja, que um homem sem origem segura é convocado para o serviço sacerdotal. Não pretende somente constatar objetivamente que “a Sagrada Escritura não contém registros genealógicos de Melquisedeque, enquanto traz com tanto cuidado as árvores genealógicas dos patriarcas”. Trata-se de algo muito mais importante! Melquisedeque não teve princípio de dias, nem fim de existência. “Também nesse aspecto revela-se um mistério. Na Escritura não são mencionados nem o seu nascimento nem a sua morte. Contudo, o que não é contado na Escritura não pode ser comprovado historicamente ou não aconteceu. O sacerdote sem origem sacerdotal tampouco possui delimitação de vida e atuação definidas pela Escritura. Esta constatação extrapola os limites da existência humana”. O apóstolo não somente diz que o AT silencia acerca do nascimento e da morte de Melquisedeque. De suas palavras fica evidente o seguinte: falta, nesse personagem, a correlação terrena, Melquisedeque está fora da ordem normal da vida. Ele não recebeu o seu sacerdócio, nem o transmitiu adiante. Sua origem é de natureza celestial, inexplicável, e aponta para a existência perpétua de Melquisedeque. É o que nos confirmam as palavras: “Dele se testifica que vive” (v. 8), “Ele é sacerdote segundo o poder de vida indissolúvel” (v. 16) e “Ele tem, porque permanece perpetuamente, um sacerdócio imutável” (v. 24).
Ao se aproximar do fim de seu raciocínio o apóstolo levanta um pouco o véu do mistério: feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote perpetuamente. Pelo que se evidencia, foi a esta frase que o apóstolo deu o peso maior. É por isto que ele volta a recorrer à palavra do salmo. Contudo, pela autoridade do Espírito Santo ele altera, na sua interpretação, o seu sentido. No Sl 110.4 consta: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque”. O Messias é que está sendo interpelado. A ele é que se promete o sacerdócio eterno. Melquisedeque é colocado como figura inicial, o Messias é sua réplica, não inversamente. A ordem de Melquisedeque é um exemplo para o sacerdócio messiânico. Este sentido original é que o apóstolo está invertendo. Ele afirma: Melquisedeque foi feito idêntico ao Filho de Deus. Cristo é a imagem original, nele persiste desde a eternidade a verdadeira ordem sacerdotal, Melquisedeque é a réplica, que por sua vez aponta para o cumprimento pleno de todo sacerdócio em Cristo. Melquisedeque é o personagem terreno precoce desse sacerdócio eterno, a réplica, no qual porém não se perdeu nada do conteúdo da imagem original. É por isto que este sacerdócio de Melquisedeque continua eternamente.
Em poucas frases marcantes, o apóstolo elaborou para a comunidade o entendimento da pessoa excelsa de Melquisedeque. Concedeu-lhe a chave para o mistério espiritual das declarações do AT em Gn 14.17-20 e no Sl 110.4. Melquisedeque é semelhante ao Filho de Deus, é imagem do Filho. A figura de Melquisedeque torna-se transparente para Jesus Cristo. Em Melquisedeque o Senhor vem ao nosso encontro (cf. Jo 8.56).
b. A superioridade de Melquisedeque sobre Abraão e Levi ao receber o dízimo, 7.4-10
4 Considerai, pois, como era grande esse a quem Abraão, o patriarca, pagou o dízimo tirado dos melhores* despojos.
5 Ora, os que dentre os filhos de Levi recebem o sacerdócio têm mandamento de recolher, de acordo com a lei, os dízimos do povo, ou seja, dos seus irmãos, embora tenham estes descendido de Abraão;
6 entretanto, aquele cuja genealogia não se inclui entre eles recebeu dízimos de Abraão e abençoou o que tinha as promessas.
7 Evidentemente, é fora de qualquer dúvida que o inferior é abençoado pelo superior.
8 Aliás, aqui são homens mortais os que recebem dízimos, porém ali, aquele de quem se testifica que vive.
9 E, por assim dizer, também Levi, que recebe dízimos, pagou-os na pessoa de Abraão.
10 Porque aquele ainda não tinha sido gerado por seu pai, quando Melquisedeque saiu ao encontro deste.
Duas linhas histórico-salvíficas do sacerdócio dominam o pensamento do AT. Existe uma linha terrena, que vai de Abraão até Arão e seus descendentes, passando por Levi, e outra celestial, que começa com Melquisedeque. Ela leva a Davi, que nesse contexto torna-se mediador da promessa porque lhe foi confiada a palavra do rei sacerdote messiânico vindouro. A linha sacerdotal celestial desemboca no Messias vindouro, ela aponta para Cristo. Apesar de que os sacerdotes, filhos de Levi e Arão, recebem o dízimo da mesma forma como Melquisedeque o recebeu de Abraão, eles nem por isto são equiparados a Melquisedeque enquanto sacerdotes. São estes os pensamentos que o apóstolo pretende desenvolver no presente trecho.
4 O apóstolo retoma mais uma vez a peculiaridade do relato do AT, inicialmente mencionado somente à margem: Considerai, pois, como era grande esse a quem Abraão, o patriarca, pagou o dízimo tirado dos despojos*. Abraão é o iniciador do povo de Deus do AT e ao mesmo tempo paradigma do povo de Deus do NT, no que possui significado duradouro. Enquanto já no AT ele é designado como “príncipe de Deus” (Gn 23.6) e chamado por Deus de “amigo” (Is 41.8), o autor está falando dele como o “patriarca”. O que se relata a seu respeito possui conotação simbólica.
Abraão entregou o dízimo a Melquisedeque. Este dízimo ele retirou dos despojos. No decurso dos acontecimentos do AT nos é relatado pela primeira vez que o dízimo é oferecido. A entrega do dízimo por Abraão a Melquisedeque (Gn 14.20) não aparece de modo isolado na Sagrada Escritura. Com a maior naturalidade o apóstolo relaciona diretamente, no presente trecho de Hb 7.4-10, este primeiro fornecimento do dízimo com a ordem posterior do dízimo em Israel.
Em Israel eram praticadas diversas formas de oferta do dízimo. Distinguia-se entre “primeiro dízimo” e “segundo dízimo”. O primeiro dízimo era uma contribuição que todo israelita devoto tinha de pagar ao santuário para o Senhor. A ordem original dizia: “Também todas as dízimas da terra, tanto dos cereais do campo como dos frutos das árvores, são do Senhor; santas são ao Senhor” (Lv 27.30-32; Nm 18.21-24). Em contraposição o segundo dízimo era uma espécie de “poupança compulsória”. Cada israelita devia guardar a décima parte de sua propriedade, a fim de cobrir com ela o seu sustento quando peregrinasse até o templo do Senhor para prestar sacrifícios e adorar naquele local. Todos os bens que ele não pudesse levar consigo deveriam ser convertidos em dinheiro, a fim de poder abastecer-se no lugar do seu Deus com aquilo que necessitasse. A palavra de Deus dizia: “Esse dinheiro, dá-lo-ás por tudo o que deseja a tua alma, por vacas, ou ovelhas, ou vinho, ou bebida forte, ou qualquer coisa que te pedir a tua alma; come-o ali perante o Senhor, teu Deus, e te alegrarás, tu e a tua casa” (Dt 14.22-26). Além disto, a ordem do AT ainda conhecia a terceira forma do “dízimo dos pobres” (Dt 14.28,29). A cada três anos o israelita devoto devia guardar o dízimo, para com ele auxiliar os concidadãos necessitados. Se por um lado era prerrogativa dos levitas que eles podiam receber o primeiro dízimo, para usá-lo em sua própria subsistência, por outro lado eles tinham a obrigação de também entregar deste dízimo a décima parte ao Senhor, que então passava à propriedade imediata do santuário (Nm 18.26-28; Ne 10.38). Fazia parte das peculiaridades da ordem do dízimo no AT que o primeiro e o segundo dízimos tinham de ser levados ao lugar do santuário (Dt 12.6,11,17), a saber, à presença direta de Deus. O dízimo para os pobres, porém, permanecia no local de residência do israelita e podia ser solicitado localmente pelos necessitados. Além disto, cada israelita tinha a obrigação de proferir perante Deus uma “confissão de dízimo”, a cada terceiro ano, informando quando tinha pago o dízimo dos pobres, na qual ele declarava perante Deus e as pessoas ter cumprido a ordem de Deus, pedindo por sua bênção (Dt 26.12-15).
Muito antes da legislação no Sinai os patriarcas tinham conhecimento da prática do dízimo (Gn 14.20; 28.22), constituindo sobretudo expressão visível de sua gratidão e uma confissão de sua dependência de Deus. A importância espiritual também ficou preservada na época posterior. Ao mesmo tempo, a entrega pontual e conscienciosa do dízimo deveria tornar-se um exercício espiritual permanente no temor a Deus (Dt 14.22,23) e uma chave para a bênção de Deus (Dt 14.28,29). Para cada israelita deveria ser possível experimentar a confiabilidade das promessas divinas quando se rendesse plenamente na fé em Deus (Ml 3.10; cf. Pv 3.9,10).
Toda vez que o israelita entregava o dízimo ele se via colocado por Deus diante de perguntas fundamentais. De quem obténs as tuas dádivas? Que estás recebendo? A quem deves prestar uma oferta? Que é que deves ofertar? Que significa para ti esta dádiva? Como estás ofertando? – São
perguntas sobra as quais também o fiel da igreja do NT deve refletir constantemente. O israelita tinha de dar a resposta pessoal a estas perguntas na sua vida prática.
Quando Deus concedia a seu povo tempos de bênçãos especiais e de recomeço espiritual, como por exemplo sob o rei Ezequias e sob Neemias, a Bíblia informa sobre o cumprimento alegre do dever do dízimo (2Cr 31.5,6,12; Ne 10.38,39; 12.44; 13.5,12). Deus aceitava a confissão humilde de dependência por parte das pessoas ao entregarem o dízimo, abençoando-a. Em oposição a isto acontecia a entrega não espiritual do dízimo, na qual o ser humano não vive com a posição apropriada do coração perante Deus. Contra esta atitude profere-se a palavra da condenação (Am 4.4; Mt 23.23; Lc 11.42; 18.12).
Quando os israelitas reivindicaram de Samuel a instituição de um rei, Samuel lhes anunciou por incumbência de Deus o direito deste rei. O fato de que em 1Sm 8.15-17 a exigência do dízimo é elevada a prerrogativa do rei possui dois significados. Em Israel, o rei não ocupa o lugar de Deus, não é declarado como divindade – como muitas vezes entre os gentios – mas não obstante entra numa relação de proximidade com Deus. Todo dízimo que é trazido ao rei em última análise não deixa de ser um dízimo dado a Deus. Os Sl 2 e 110 conferem um significado messiânico para o fim dos tempos ao reinado em Israel. Em Jesus Cristo ele veio a cumprir-se. Desta forma, porém, Cristo torna-se o verdadeiro rei no sentido pleno da promessa. Diante dele todos os reis de Israel foram tão somente precursores. No sentido mais profundo, é a ele que compete, como rei do povo de Deus do NT, o direito do dízimo. No presente contexto é importante que o apóstolo, com base em sua compreensão, não institui uma nova lei de obrigações, mas que ele superou o pensamento legalista. Quem crê em Cristo não é devedor de quaisquer tributos na nova aliança. Pelo contrário, o autor considera, em Hb 13.16, assim como Paulo em 1Co 16.1ss e 2Co 8.9ss, que na igreja do NT o doador sabe que está comprometido a realizar suas ofertas por gratidão.
5,6 Constatamos que o interesse do autor não se concentra nos pormenores da ordem do dízimo, mas no relacionamento em que se encontram Abraão, os levitas e Melquisedeque por ocasião da entrega do dízimo. Toda a ordem do dízimo do AT está alicerçada, em última análise, sobre Abraão. Ele mesmo pagou o dízimo a Melquisedeque. Agora o apóstolo ressalta que uma seleção dos descendentes de Abraão, os sacerdotes da estirpe de Levi, recolhem o dízimo de seus compatriotas. Como todos os demais israelitas, eles também descendem de Abraão, são de origem terrena. Mesmo assim, como levitas, possuem privilégios diante de seus irmãos. À igualdade, decorrente da criação, de todos os israelitas enquanto descendentes de Abraão, contrapõe-se a superioridade de Melquisedeque sobre Abraão. Os israelitas entregavam seu dízimo a sacerdotes que eram de origem humana, cuja genealogia pode ser traçada até Abraão. Abraão, porém, ofertou o dízimo a um sacerdote que era de procedência celestial. A existência de Melquisedeque perante Deus é única, incomparável. Em Melquisedeque, Deus estabeleceu um sacerdócio fora da lei, um ministério sem base e sem descendência legais.
7 É por esta razão que a palavra de bênção de Melquisedeque também foi particularmente eficaz na vida do abençoado Abraão, proporcionando-lhe participação nas dádivas e na riqueza de Deus. Este pensamento é explicado na frase seguinte: Evidentemente, é fora de qualquer dúvida que o inferior é abençoado pelo superior (“melhor” [tradução do autor]). O que o apóstolo sempre visa é apenas destacar a superioridade de Melquisedeque sobre Abraão e o sacerdócio levítico. Agora ele não aborda o dízimo e sim a bênção. A diferença entre os “inferiores” e o “melhor” não reside nos padrões humanos de dignidade e posição social, mas na confirmação de Deus e no preenchimento com autoridade espiritual. Na bênção sempre se trata da autoridade de Deus que é proporcionada ao ser humano sacerdotal pelo convívio pessoal com o Senhor e pela vida em sua proximidade.
8 Os “inferiores” são humanos mortais, o “melhor” é Melquisedeque, a respeito de quem se dá o testemunho de que “ele vive”. Ainda que o nosso texto não expressa nada sobre como devemos imaginar a vida de Melquisedeque, mesmo assim a palavra apostólica deixa claro que não apenas se deve pensar que Melquisedeque continua vivo nos pensamentos de Deus, mas que ele realmente vive na eternidade de Deus. Esta idéia torna-se compreensível para nós quando pensamos naquilo que dissemos sobre Melquisedeque na unidade anterior. O sacerdote real Melquisedeque não é nenhum outro senão a pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo, à qual pelo mistério de Deus se sobrepõe um personagem de revelação impenetrável para a nossa capacidade de raciocínio. Depois de sua breve
aparição na terra, que se equipara ao brilho de um meteoro no firmamento escuro, ele retornou à glória de Deus por força de sua vida imperecível.
9,10 Com aguçamento perspicaz o apóstolo persegue a idéia de comprovar a superioridade de Melquisedeque sobre Abraão e Levi: Melquisedeque recebeu o dízimo. Levi e seus descendentes também arrecadam o dízimo. Não seria o caso, portanto, de ambos estarem no mesmo nível? É precisamente isto que o apóstolo nega. Ele ressalta que também os levitas entregaram o dízimo a Melquisedeque através de Abraão. Logo, encontram-se numa relação de dependência dele. Somos remetidos a um acontecimento de cunho providencial que excede os limites da existência pessoal de cada um. Como temos de entender isto? No pensamento bíblico o ancestral e patriarca é a corporificação de toda a sua descendência. Levi foi um bisneto de Abraão e ainda não era nascido quando Abraão encontrou Melquisedeque. Contudo, assim como Levi representava em sua pessoa o sacerdócio israelita de todos os séculos subseqüentes, assim também pode ser dito a respeito dele que na pessoa de seu ancestral Abraão ele pagou o dízimo a Melquisedeque. Em outras palavras: com a entrega do dízimo a Melquisedeque, Abraão tomou uma decisão cujas conseqüências se estendem sobre todas as gerações futuras. Para esta correlação também existe um paralelo no NT: sem que tivéssemos contribuído pessoalmente para esta situação, todos nós nos encontramos numa ligação providencial com o primeiro homem Adão, com sua culpa original e com a fatalidade da morte. Do mesmo modo, porém, estamos também em ligação providencial com Cristo, uma vez que sua ressurreição tornou-se o fundamento do fato de que um dia todas as pessoas ressuscitarão (Rm 5.12ss; 1Co 15.21ss). O apóstolo também comprova uma ligação de destinos deste tipo de Abraão, Levi e os sacerdotes levitas. Levi, o ancestral dos sacerdotes israelitas, “ainda […] estava nos lombos de seu pai, quando Melquisedeque lhe saiu ao encontro” (RC).
c. O novo sacerdócio demanda uma nova ordem sacerdotal, 7.11-17
11 Se, portanto, a perfeição houvera sido mediante o sacerdócio levítico (pois nele baseado o povo recebeu a lei), que necessidade haveria ainda de que se levantasse outro sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque, e que não fosse contado segundo a ordem de Arão?
12 Pois, quando se muda o sacerdócio, necessariamente há também mudança de lei.
13 Porque aquele de quem são ditas estas coisas pertence a outra tribo, da qual ninguém prestou serviço ao altar;
14 pois é evidente que nosso Senhor procedeu de Judá, tribo à qual Moisés nunca atribuiu sacerdotes.
15 E isto é ainda muito mais evidente, quando, à semelhança de Melquisedeque, se levanta outro sacerdote,
16 constituído não conforme a lei de mandamento carnal, mas segundo o poder de vida indissolúvel.
17 Porquanto se testifica: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque.
11 Nos v. 4-10 o apóstolo havia falado do sacerdócio e do recebimento do dízimo. Agora ele enfoca mais de perto a relação entre sacerdócio e lei (v. 11-17), a fim de refletir sobre o significado das palavras de instituição (v. 18-28) pelas quais Deus havia conferido validade ao sacerdócio de Melquisedeque. Em todas as três relações, o sacerdócio de acordo com a ordem de Melquisedeque é superior ao sacerdócio conforme Arão. Uma pergunta é agora o ponto de partida de suas considerações: que necessidade haveria ainda de que se levantasse outro sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque, e que não fosse contado segundo a ordem de Arão? Afinal, o próprio Deus havia concedido a seu povo, por ocasião da celebração do pacto no Sinai, uma ordem sacerdotal válida. Lei e sacerdócio estavam ancorados conjuntamente na aliança que Deus havia firmado com seu povo. Israel tinha consciência do compromisso que significavam os estatutos legais dessa aliança. “Cumpriremos todos os mandamentos que o Senhor ordenou!” Era esta a confissão de todos os israelitas (Êx 24.3-8). Por que Deus queria estabelecer a vigência de outra ordem sacerdotal? O apóstolo tem somente uma resposta para esta questão: “Porque mediante o sacerdócio levítico não foi alcançada nenhuma perfeição” (tradução do autor). Desde o tempo da Guerra dos Macabeus estava viva entre muitos judeus a esperança por uma era nova e melhor, pelo tempo da restauração da verdadeira ordem de Deus, na qual um sacerdote digno governaria sobre o povo. No entanto, este
futuro sacerdote da tribo de Levi podia quando muito concretizar a figura ideal do sumo sacerdócio de Arão, jamais porém trazer a perfeição no sentido como o apóstolo a entende na presente carta. O termo grego teleíosis, “aperfeiçoamento”, aparece no NT apenas ainda em Lc 1.45, no voto de saudação de Isabel a Maria, a mãe do Senhor: “Bem-aventurada és tu, que creste! Pois será aperfeiçoado (em grego: éstai teleíosis) o que te foi dito da parte do Senhor” (tradução do autor). Ambas as afirmações, em Lc 1.45 e Hb 7.11, são afins no conteúdo, mas também devem ser nitidamente diferenciadas uma da outra. Em nosso versículo não se trata somente do cumprimento de uma promessa isolada de Deus, mas da consumação do plano de salvação divino. Com suas ordens outorgadas por Deus, o sacerdócio do AT constitui apenas um passo importante no caminho da história da salvação até a consumação. Não é nem toda a história salutar nem é a última etapa. O desígnio salvador de Deus, de redimir o mundo perdido, tem em Cristo e na igreja o seu centro. Ele alcançará a perfeição na nova criação de céu e terra.
12,13 Pela determinação de Deus, o sacerdócio e a ordem sacerdotal do AT estavam estabelecidas pela lei cultual. Se Deus estabelece um novo sacerdócio, revoga-se deste modo esta lei no âmbito das ordens da antiga aliança e uma nova lei entra em vigor. Para o apóstolo, é fato notório que isto realmente já aconteceu. A lei do AT previa que somente homens da tribo de Levi podiam ser convocados para o serviço no santuário, e que unicamente descendentes de Arão podiam comparecer como sacerdotes perante o altar. Pelo fato de que Jesus Cristo foi convocado por Deus para ser sumo sacerdote, Deus mesmo revogou esta ordem.
14,15 Pois é evidente que nosso Senhor procedeu de Judá, tribo à qual Moisés nunca atribuiu sacerdotes. A promessa messiânica, que Jacó emitira sobre a tribo de Judá (Gn 49.8-12) e que Deus renovou no auge do profetismo (Is 11.1), é confirmada e consumada na nova aliança em Jesus Cristo (Mt 2.6; Ap 5.5). É nele, o “Leão da tribo de Judá”, que o reinado e sacerdócio estão unificados (Sl 110.1,4; Zc 6.11). Contudo, não é somente no fato de que o sumo sacerdote do povo de Deus do NT é oriundo da tribo de Judá que se torna claro que Deus quebrou a ordem sacerdotal da antiga aliança. Por sua natureza, o novo sumo sacerdote está numa relação imediata com Melquisedeque. Seu sacerdócio está fundamentado sobre uma ordem sacerdotal original de Deus.
16,17 Cristo não foi constituído sumo sacerdote conforme a lei de mandamento carnal. A ordem antiga atrelava o ministério sacerdotal a premissas terrenas e humanas. Os sacerdotes tinham de possuir determinada origem humana – mais precisamente tinham de ser descendentes de Arão – não podiam ter deficiências físicas (Lv 21.17-21) e podiam exercer sua função somente quando tinham pureza cultual. A nova ordem sacerdotal, porém, segundo a qual Cristo foi chamado para ser sumo sacerdote, traz as insígnias do poder de vida indissolúvel. Esta força (em grego: dýnamis) é o sinal da nova aliança, do “mundo vindouro”, e é ao mesmo tempo a força da palavra, do Espírito Santo e dos milagres que aconteceram por intermédio de Jesus e dos apóstolos. Neste poder manifesta-se a atuação diretamente presente de Deus. De modo elementar, este “poder divino da vida indestrutível” revelou-se por ocasião da ressurreição de Jesus, atuando incessantemente ainda hoje na vida dos fiéis (Ef 1.19,20). Repetidamente deparamo-nos com a fidelidade com que o apóstolo se apega à revelação de Deus no AT. Por isto empenha-se especialmente em justificar toda afirmação importante sobre a fé com uma palavra do AT. Assim, encerra sua reflexão com mais uma referência ao Sl 110.4. A própria palavra do AT, que vê o reinado e o sacerdócio unidos no Messias vindouro, diz que este novo sacerdócio é eterno. Para nenhum dos descendentes de Arão vigorava a declaração divina: “sacerdote eternamente”. Porém em Cristo ela se tornou fato real. Como Ressuscitado ele possui o “poder de vida indissolúvel” (cf. Rm 6.9). Ele é “sacerdote eternamente”.

 

 

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